Às vezes me dá enjôo de gente. Depois passa e fico de novo toda curiosa e atenta. E é só.Dizem que a frase é da Clarice, teria que descobrir a fonte exata, mas a frase é boa, condiz fortemente com o que eu sinto. O ser humano é capaz de coisas realmente interessantes, por vezes muito contraditórias. O que eu quero dizer é que o ser humano é capaz de criar tecnologias estupendas, vigiar o universo, acompanhar o nascimento ou a morte de estrelas no espaço com o auxílio de satélites ultra-potentes, telescópios gigantes e toda a parafernália necessária. Mas ele ainda não consegue entender a si mesmo. Não consegue gastar um mísero centavo na melhoria de sua própria vida. Não estou defendendo nenhuma política de redistribuição de renda, que não se confunda com isso. A questão é a motivação do homem, não o resto.
O homem foi capaz de desenvolver sistemas econômicos complexos, deturpar alguns evidentemente, mas não consegue acabar com a sua miséria pessoal. Estabelece novas formas de trabalho e novas tecnologias e, ao contrário do que isso deveria acarretar, acaba afastando os homens uns dos outros. Qual a motivação? Não pretendo responder, até porque seria muito pretensioso da minha parte. Mas por que o homem cria meios de se isolar? E mesmo os que não fazem parte dessa sociedade tecnológica, super-desenvolvida, acabam sendo isolados, pelo simples fato, justamente, de não estarem incluídos nesse meio. Quer dizer, os super-desenvolvidos isolam-se entre si e isolam os que ficaram de fora, num ciclo eterno.
Ainda, exploram-se uns aos outros, como meio de sobrevivência. Insisto que não estou defendendo posições, a questão é a intenção do homem em fazê-lo dessa forma. Talvez seja o meio mais prático. Sujeita-se quem precisa, explora quem tem meios. Mas as coisas parecem estar sofrendo uma mudança, há uma maior preocupação com o bem-estar do explorado, para que não se sinta tão explorado. É uma sorte de caridade culpada, uma estranha benevolência para consigo mesmo. Estaria o homem sentindo-se culpado por anos e mais anos de exploração gratuita? Claro que eu só me refiro aos ocidentais, contemporâneos, esses que têm na memória anos e mais anos de escravidão. Os outros, não os conheci, não posso opinar sobre seus motivos; os hábitos eram outros, e educação era outra, e os – por vezes perversos – costumes, também eram outros.
Mas o que incita essa miserabilidade do homem? E pensar que criaram religiões há muitos séculos para ter a que se apegar. Retomaram o tema mais à frente, tentando resgatar uma ínfima parte das almas que estavam se transformando em máquinas, como uma praga, uma peste negra moderna. E essa criação tomou ao longo do tempo novas formas, agravou-se profundamente em algumas partes. Fundamentalismos, extremismos, uma grande forma de exageração de algo que deveria se restringir ao pessoal, mas que nos momentos de desespero coletivo são evocadas em apelo de um todo que não se identifica por nenhum outro ponto, que se massacra mutuamente. Esses seres humanos são miseráveis de vários pontos de vista.
E quanto mais se observa, mais deprimente o quadro se forma. A menor infração pode se tornar a maior das catástrofes; fugir ao padrão do todo, minimamente, pode ser pena de morte em um lugar, ou tornar-se um novo padrão em outro. O homem é capaz de desenvolver máquinas de guerra poderosíssimas, mas não é capaz de resolver problemas de desenvolvimento de suas próprias cidades. Pode gastar trilhões em caças de guerra, quando não há guerra, mas se recusa a dar água para milhares de sedentos. Triste não é a situação, mas quando conseguimos perceber isso.
E quanto mais se observa, mais deprimente o quadro se forma. A menor infração pode se tornar a maior das catástrofes; fugir ao padrão do todo, minimamente, pode ser pena de morte em um lugar, ou tornar-se um novo padrão em outro. O homem é capaz de desenvolver máquinas de guerra poderosíssimas, mas não é capaz de resolver problemas de desenvolvimento de suas próprias cidades. Pode gastar trilhões em caças de guerra, quando não há guerra, mas se recusa a dar água para milhares de sedentos. Triste não é a situação, mas quando conseguimos perceber isso.
São bilhões e mais bilhões de formigas, acumulando-se umas sobre as outras, perdidas no meio do absoluto nada do universo. Cada um tem a sua peculiaridade. Mas não respeitam a diferença entre cada um. Esse é o ser humano, evoluindo para sua própria destruição. Por isso o homem me enjoa, por vezes. Por não reconhecer quão pequenos e miseráveis são. Talvez os que reconheceram isso é que tenham evoluído um pouco, e não estou falando de mim, ainda faço parte dessa raça.

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